quarta-feira, 20 de março de 2013
Everyday carry (EDC)
Por Donarte Nunes dos Santos Júnior


INTRODUÇÃO

O presente texto, como o leitor poderá constatar, está dividido em dois aspectos: um deles é universalista; o outro, exclusivista. Deste modo, a presente reflexão pretende, num primeiro momento, ser universalista, porque ambiciona buscar uma conceituação acerca de o que seja EDC. Intenta, por outros termos, ser filosófica, universal, ou seja, oferecer uma definição que possa ser aplicada a todo e qualquer EDC. Num segundo momento, a presente reflexão pretende ser exclusivista, específica, no sentido de buscar fazer um levantamento e informar a experiência individual e particular de uma pessoa (o autor do texto) no uso de seu EDC, ou seja: o item que foi usado, como foi usado, o porquê de seu uso.


CONCEITO DE EDC

EDC, sigla para as palavras inglesas Everyday Carry (“transporte diário”), é um conceito. Trata-se de um conceito, no mais amplo sentido do termo, porque guarda, por trás de si, todo um complexo de idéias, todas elas, ou, a maioria delas, relacionadas com o “estar preparado para situações adversas”. Em razão de o fio condutor do conceito de EDC estar relacionado ao estar preparado, certas noções, tais como, sobrevivência, utilidade, acessibilidade, confiabilidade, essencialidade, previsibilidade, eficiência, etc., estão sempre subjacentes.

EDC é, na realidade, a concretização dos meios necessários para se obter a efetivação de uma ação que pode e/ ou deve ser tomada para que uma idéia seja, na prática, realizada pelo homem no sentido de resolver, sanar ou remediar uma adversidade. Por outros termos, o EDC se manifesta sob a forma de ferramentas que são necessárias para a execução de alguma tarefa. EDC é, então, a conexão entre “o que tem de ser feito” e ou com o “fazer”: trata-se dos meios necessários, os instrumentos, os utensílios, as peças que irão tornar possível determinada ação que está mais ou menos conectada com a idéia de resolverá uma necessidade, emergência e/ou adversidade.

É o tipo de coisa por demais óbvia, tão óbvia que, muitas vezes, por fazer parte da vida cotidiana do ser humano desde os primórdios, acaba sendo menosprezado pelas pessoas em geral. Aliás, muitas vezes o que é óbvio recebe esse tratamento, a negligência. Justamente por ser evidente acaba sendo vulgarizado, apesar de ser axiomático e incontestável. Em razão disso, nem sempre a mais arguta das pessoas consegue resolver uma situação adversa, justamente porque não estava preparada, e, portanto, não previu o que poderia e/ ou deveria acontecer.

Isso invariavelmente é assim porque o modo de vida urbano que é levado diariamente pela imensa maioria dos habitantes das grandes capitais, faz com que eles se desapercebam que as facilidades oferecidas hodiernamente podem, sem aviso prévio, serem interrompidas a qualquer momento. Deste modo, é só nas situações de privação que as pessoas se dão conta de que precisam de ferramentas. A carência de meios necessários a certas ações, invariavelmente, surpreende o homem, deixando-o sem condições de agir: a falta de luz, a falta de água e de comunicação; nas ocasiões de desabamentos, de incêndios e de acidentes; nas necessidades mais elementares, como abrir uma caixa, uma garrafa, uma lata; nas emergências onde se é necessário cortar uma corda, quebrar um vidro, etc., é que o homem percebe que é um animais muito pouco preparado fisicamente para ações que requerem força, corte, perfuração, ajustes, quebras, dobraduras, etc. – o ser humano não tem e que muitos outros animais possuem: garras afiadas e dentes pontiagudos, por exemplo; temos pele, não couraças resistentes; não suportamos, como outros seres vivos, certas temperaturas e privações. Em outras palavras, o homem é pouco aparelhado para resolver adversidades, e, geralmente, só se dá conta deste fato de obviedade patente e indiscutível, quando está diante dele, vislumbrando-se despreparado.

A constatação acima faz com que algumas pessoas desejem estar preparadas para o enorme espetro de eventos possíveis e imagináveis que as podem assaltá-las na vida diária. Tais pessoas, na imensa maioria das vezes, não fazem essa preparação pensando somente em si mesmas, mas, também, nas outras. A pessoa que passa a cultivar o conceito de EDC é, no mais amplo sentido do termo, cidadã, pois, acaba despertando para as potencialidades, necessidades, perigos e privações ante os quais pode cair, e, diante disso, tenta não ser pega de surpresa; isso pressupõe o outro, visto que ninguém vive só, em virtude de o ser humano ser um ser social por natureza. Então, na prática, o EDC que serve para a pessoa que o porta pode também servir à acompanhante.

Diante do que foi visto até aqui, pode-se dizer que EDC é o conjunto de utilidades que uma pessoa carrega todos os dias, e que podem ser úteis e/ ou necessários para ela e para outrem.

O EDC também está relacionado à idéia de sistema. Trata-se, de certo modo, de um sistema que procura cobrir uma série de necessidades básicas e de primeira grandeza quando o assunto é a manutenção da integridade da vida humana.

Invariavelmente, apesar de alguns autores fazerem distinções entre “kit’s EDC” e “kit’s de sobrevivência”, todos eles são unânimes em dizer que o ideal seria que um sistema desse tipo fosse pensado no sentido de cobrir as necessidades relativas a obtenção de fogo, água, navegação, orientação e sinalização, abrigo e alimentos.

Assim, os sistemas EDC vão apresentar uma série de ligeiras modificações, todas elas variando conforme a necessidade previamente planejada.

Em razão disso, existem EDC’s para matas e florestas, EDC’s urbanos, etc. A grande maioria deles trará itens, tais como:


- Preservativos para armazenamento de água

- Recipiente tipo cantil ou garrafa Pet

- 2 ou 3 formas diferentes para se fazer fogo (Isqueiro; fósforos; pederneiras com carvão de tecido e/ou bolas de algodão; lentes de aumento)

- Tiras de borracha de câmara de ar de pneu

- Um bom canivete e/ou faca

- Sacos plásticos de lixo resistentes e grandes (para se fazer um abrigo   impermeável pra chuva ou coletar água)

- Velas em pedaços (para ajudar a acender fogo, ou iluminar)

- Agulhas /linha /alfinetes de segurança (Para se fazer reparos em roupas e equipamentos; anzóis; suturas)

- 10 metros de cordame resistente, de nylon, tipo “Paracord” (para se fazer abrigos, armadilhas, torniquetes, reparos e amarras em geral)

- Cobertor de alumínio de emergência (para aquecimento, abrigo ou sinalização)

- Uma bússola (Dos tipos: Silva; De Visada; De Pulso ou Botão)

- Um Apito (que soe bem alto)

- Um espelho sinalizador (pode se usar a superfície reluzente de um C.D. ou o avesso de uma embalagem de salgadinhos ou Chips, ou qualquer outra superfície brilhante)

- arame fino e maleável


EXPERIÊNCIA INDIVIDUAL NO USO DO EDC

            A experiência individual do presente autor sobre EDC é bastante antiga. Data da época de criança. Época em que as noções acerca do “estar preparado” não eram tão amplamente divulgadas pela Mídia, quando, tampouco, o termo EDC era conhecido e utilizado no Brasil. Ainda assim, desde criança e desde jovem-adolescente, o presente autor sentia a necessidade de carregar, diariamente, uma lâmina no bolso. Tal lâmina se manifestava sob a forma de um canivete simples.

Um canivete é, por assim dizer, uma das ferramentas mais versáteis e utilizáveis no dia-a-dia. Seja para abrir uma caixa, passando por cortar uma corda, até chagar ao descascar uma fruta, um canivete pode ter múltiplas utilidades.

            Com o passar dos anos e a conseqüente complexificação das atividades diárias, as necessidades vão se apresentando e tornando mais complicadas e variadas. Assim, o antigo canivete simples cedeu lugar ao de múltiplas utilidades. O presente autor, por ocasião de um “amigo secreto” na empresa onde trabalhava, pediu um “canivete suíço” de presente. Célebre entre os canivetes multifunção, o “canivete suíço” que foi utilizado por décadas pelo presente autor foi o modelo “camping”. Atualmente, porém, o modelo que está sendo utilizado é o “swisschamp” Há décadas, presente autor constata a imensa utilidade de uma ferramenta dessas no bolso.

Mais recentemente, pesquisas na Internet levaram o presente autor, já adulto e profissional formado, a (re)visitar as noções de estar preparado, bem como, a descoberta do conceito de EDC, tema do presente texto. Tal reencontro e upgrade de noções relativas à utilidade diária frente às adversidades, levaram o presente autor a montar o próprio sistema EDC. Inicialmente o EDC do presente autor foi fortemente influenciado por praticantes do chamado bushcraft, tais como Giuliano Toniolo.

Assim, o primeiro sistema EDC do presente autor foi distribuído para ser carregado diariamente em duas latas de balas da marca Altoids.

Num primeiro momento, então, o kit EDC do presente autor continha os seguintes itens:

- corda


- isqueiro envolto em fita tape ("silver tape")

- fio dental

- agulhas com olha grande

- pinça

- lâmina de barbear (Gillete)

- Serra para metal

- band-aid's

- espelho embrulhado em papel alumínio

- anti-ácido ("sal de fruta 'ENO'")

- lenços umidecidos com álccol

- 1 pregos

- clips

- fósforos

- alfinetes simples

- alfinetes com cabeça tipo bola, para mural

- Fita adesiva dupla-face ("segura tudo")

- fitilhos (arames para fechar sacos e sacolas)

- vela pequena

- cola "super bonder"

- 2 botões pequenos

- cola epóxi (dois pequenos pedaços de cada uma das misturas)

- preservativo

- linha de pesca (linha de "nylon" fina)

- folha de papel alumínio

- agulhas presilhas do tipo "joaninhas"

- fita isolante

- dinheiro (uns 100 reais)

- lista de telefones úteis e de emergência

- cotonete


Como se pode ver, tratava-se de um kit muito volumoso, distribuído, como já foi dito, em duas latas de balas Altoids.

Em razão disso, e da constatação de que, na imensa maioria das vezes, muitos dos itens nunca eram usados, o presente autor fez um enxugamento do kit, que passou a ser assim, numa lata de balas da marca Mentos:

- lâmina: minichamp swiss army knife (Victorinox)

- pinça: no minichamp swiss army knife (Victorinox)

- analgésicos: dôrico e paracetamol (1 de cada)

- Serra para metal

- band-aid's

- 1 prego

- clip de papel

- alfinetes com cabeça tipo bola, para mural

- fitilho (arame para fechar sacos e sacolas)

- cola "super bonder"

- pilhas (AAA "palito")

- pen drive (HP 8Gb (c/ softwares diversos)

- uma argola tipo anel para chaveiro


O kit acima se mostrou fantástico!!! Havia um problema, porém: a acessibilidade era prejudicada em virtude da lata escolhida, que passou a ser a de balas da marca mentos, ter a abertura pouco ampla. Outro constatação foi a de que de nada adianta o “minichamp” ficar dentro de uma lata pouco prática em sua acessibilidade, pois, caso seja necessário seu uso – como de fato ocorreu –, a tarefa de dar de mão nele se torna irritante.

Assim, o presente autor modificou o kit novamente, escolhendo, por contêiner, os seguintes “organizer’s”, encontrados numa loja do Shopping Iguatemi (Porto Alegra), chamada Multicoisas:

Os kits contém:

Nécessaire branca:

- preservativo

- luvas descartáveis

- fio dental

- analgésicos: “paracetamol”, “aspirina”, “dorflex”, “engov”

- anti-ácido: “sonrisal”

Nécessaire preta:


- band-aid's

- 1 prego

- clip de papel

- alfinetes com cabeça tipo bola, para mural

- fitilho (arame para fechar sacos e sacolas)

- cola "super bonder"

- 2 pilhas (AAA "palito")

- pen drive (HP 8Gb (c/ softwares diversos)

- uma argola tipo anilha para chaveiro
Uma nécessaire é colocada no bolso direito da calça e outra no bolso esquerdo - quase não faz volume.

Além das chaves:
- lâmina: minichamp swiss army knife (Victorinox)

- pinça: no minichamp swiss army knife (Victorinox)
No bolso:


REFERÊNCIAS

BOY, Cedar. Mini survival kit. Loose Arrows: A blog about sharp things. Microbevel.blogspot.com. 2012. Fonte: Disponível em: http://microbevel.blogspot.com.br/2012/06/mini-survival-kit.html. Acesso em 20 mar. 2013.

DAN, Urbivalist. The Micro EDC. YouTube.com. 2012. Fonte: Disponível em: http://youtu.be/lmlGntbGP5U. Acesso em 20 mar. 2013.

______. Have You Actually Used Your EDC?. YouTube.com. 2012. Fonte: Disponível em: http://youtu.be/agpF56iIqTE. Acesso em 20 mar. 2013.

MIKEHAMMER1911'S. Pocket Survival Kit/PSK. YouTube.com. 2012. Fonte: Disponível em: http://youtu.be/o5uOdMhl7MY. Acesso em 20 mar. 2013.

TONIOLO, Giuliano. Meu kit de sobrevivência diário (K.S.D.). YouTube.com. 2010. Fonte: Disponível em: http://youtu.be/sevx77uFpj4. Acesso em 20 mar. 2013.
posted byDonarte N. dos Santos Jr.@quarta-feira, março 20, 2013  
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Algumas ideias que batizaram e permeiam o presente ciberespaço; pensamentos mais ou menos fixos que o autor tem:
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A Mitologia Grega...:

- “A Argo: Nave dos Argonautas, construída sob a direção de Minerva, nos bosques de Dodona. O termo significa ‘rápido.’

O Fernando Pessoa...:

- o seguinte poema do escritor português:


Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso". Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. (Fernando Pessoa)



A antipatia a Nietzsche...:

- Parece poder ser possível usar o Nietzsche contra ele mesmo: "Nietzsche vs Nietzsche", pois o que ele escreve, se bem analisado, é contraditório (no mal sentido do termo). Assim, isso é bem possível de ser feito...

A contra-argumentação aos céticos...:

- “Só se poderia negar a validez à demonstração se se provasse, com absoluta validez, que o homem nada pode provar com absoluta validez” (SANTOS, Mário Ferreira dos. Filosofia Concreta. São Paulo: É Realizações, 2009, p. 61).

 

 

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    O Autor

    Nome:
    Donarte N. dos Santos Junior
    Residente em:
    Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
    Formação:
    - É Licenciado em Geografia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
    - É Especialista no Ensino de Geografia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
    - É Mestre em Educação em Ciências e Matemática (PUCRS).
    - É Mestrando em Filosofia (PUCRS).
    Atuação Profissional:
    - Foi Técnico em Geoproce ssamento do L/li/liaboratório de Tratamento de Imagem e Geoprocessamento (LTIG) da PUCRS.
    - É Professor da Prefeitura Municipal de Porto ALegre.
    Título da primeira dissertação de mestrado:
    “Geografia do espaço percebido: uma educação subjetiva”, que alcançou grau máximo obtendo nota 10,0.

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