Por Donarte Nunes dos Santos Júnior
Do
ponto de vista geopolítico, quais
seriam as consequências do Aquecimento Global?
Frequentemente,
quando o assunto é Aquecimento Global, a Mídia acaba
chamando, para fazer sua apreciação, um meteorologista.
Seria
interessante, porém, ouvir o que um geógrafo
tem a dizer.
Em
recente entrevista (02 de abr., 2014), Yves Lacoste, eminente
geógrafo, pai da famosa revista científica Hérodote
(Heródoto), professor da Universidade Paris Sorbone VIII e ícone
da Geopolítica falou
sobre o assunto.
Segundo
Yves Lacoste, os efeitos maléficos do Aquecimento Global não seriam
assim tão desastrosos. Lembremos que o autor de “A Geografia –isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra” faz sua análise
muito mais com as lentes geopolíticas
do que com as lentes ecológicas.
Lacoste, afirma que os estudos mencionam o temerário aumento do
nível do Oceano Pacífico, mas que isso afetaria, na verdade, áreas
limitadas de terra e que as populações afetadas poderiam ser
rearranjadas. Conforme Yves, o Aquecimento Global seria, em verdade,
desastroso para as populações do norte da África e do Oriente
Médio, regiões que já enfrentam problemas de abastecimento de água
e que teriam aumentadas suas estações secas. Porém, ainda assim, o
geógrafo marroquino não parece ser pessimista, e, contando com a
tecnologia, aposta na dessalinização das águas do mar e posterior
irrigação como solução.

Como
não poderia deixar de ser, o pai da revista especializada em estudos
geopolíticos Hérodote,
indo além em suas análises,
vê, no Aquecimento Global, uma possível saída que a Rússia teria
através dos mares gelados.
Desde
os tempos de Halford J. Mackinder, a Rússia é considerada como um
“urso”; não tem a “vocação” marítima dos EUA
(“baleia”). Isso é assim porque a Rússia está cercada por
mares congelados ao norte e suas saídas para as águas situadas ao sul são limitadas. Com o Aquecimento Global, porém, isso está
mudando, pois o derretimento do Oceano Glacial Ártico, além de dar
saída direta ao Oceano Pacífico, poderá fazer a ligação marítima
entre o Pacífico e o Báltico. Além disso, a recente anexação da
Crimeia pelos russos amplia a vocação marítima dos mesmos, pois
aumenta a saída destes eslavos às “águas quentes” do sul. Com
relação ao degelo do Oceano Glacial Ártico e suas consequências
benéficas para a Rússia, Lacoste só vê um empecilho – o
demográfico –, pois os cidadãos russos têm resistência a irem
trabalhar nas regiões desoladas da Sibéria.
Pode-se
dizer que, com as atuais, lúcidas e proféticas análises de Lacoste,
temos um ponto de vista deveras diferente daquele mesmo e sempre
veiculado pela Mídia: um ponto de vista que considera o Aquecimento Global sob as lentes da Geopolítica,
e que leva em conta a capacidade
e a possibilidade que
o homem tem de usar a seu favor e segundo seus interesses a variáveis do meio*, para, com isso, dominar o espaço.
* Fique claro que as "variáveis" do meio, neste caso, não são propriamente variáveis do meio, ou seja, não são em nada determinadas pela natureza. São, em verdade, mudanças ocasionadas pelo próprio homem, que, com suas emissões tóxicas, não cessa de modificar o clima planetário.
|